domingo, 17 de março de 2019

Contos & Crônicas - O orgulhoso



José era professor há mais de vinte anos. Possuía uma rotina muito rígida e era extremamente metódico. Acordava às 05:00 e lia seu jornal. Tomava café meia hora depois e, pontualmente, chegava na faculdade às 07:00. Era muito severo com seus alunos, não tolerava qualquer brincadeira, interrupções e que se opusessem à sua opinião. Por isso, ele era temido na faculdade. A maioria dos estudantes fugiam, sempre que possível, de suas disciplinas.
Ele mantinha a mesma postura com seus colegas professores, não tolerava qualquer tipo de falha ou brincadeiras. Certa vez, um professor dirigiu-lhe a palavra em tom de gracejo:
− Bom dia, Xerife!
− Por favor, caro colega, não te dei liberdade para tratar-me nesses termos. Por isso, não repita essas brincadeiras inconvenientes.
José sempre tinha uma visão crítica dos seus colegas fazendo certas asseverações negativas ao trabalho deles e isso o tornava malquisto por todos. Ele costumava almoçar sozinho, pois não considerava as conversas dos demais professores como estando à sua altura e que elas não produziam qualquer acréscimo para seu crescimento pessoal.
Em suas aulas, ele não tolerava qualquer tipo de interrupção, pois era assim que ele considerava a tentativa dos alunos de fazerem qualquer observação. Para ele, os estudantes não tinham nada de positivo para lhe oferecer em termos de conhecimento. Seu desejo era ter uma aula em que ninguém tentasse atrapalhar seu ensino.
Certo dia, no início do ano letivo, José chegou cedo, como de costume, entrou na sala e começou a dar sua aula. Nenhum dos alunos falou nada. Todos apenas ficavam olhando fixamente para ele como que guardando toda a atenção. No intervalo, os estudantes ficavam se perguntando o que aquele professor estava fazendo ali.
No dia seguinte, a mesma situação. José estava maravilhado. Nunca tinha falado tanto em uma aula. Ele andava de um lado para gesticulando para dar ênfase as suas palavras.  Ele estava pensando que havia encontrado, finalmente, uma turma digna de ouvir os seus grandes e profundos ensinamentos.
Alguns coordenadores estavam dirigindo-se para a sala em que José estava para apresentar à turma o professor que não pudera vir no dia anterior. Ao chegarem lá:
− O que José está fazendo na sala do novo curso destinado a surdos?
− Ele não estava na reunião, por isso não sabia do novo curso e que ele seria ministrado em sua antiga sala.
− Veja como ele está tão empolgado!
− Vamos interrompê-lo?
− Não! Deixe-o um pouco mais.




quarta-feira, 13 de março de 2019

Contos & Crônicas - O quadro



Antônio era um senhor de quarenta e cinco anos, alto, magro, com um semblante triste e que não possuía muitos amigos. Ele vivia sozinho em uma casa bem pequena e velha, mas que lhe pertencia.  Já fazia muito tempo em que a sorte não lhe sorria. Estava desempregado e fazia bicos para se manter. Aquela não era a vida que sonhara, mas não reclamava de nada. Sempre prestativo, costumava ajudar seus vizinhos e, também, tinha um grande apreço por animais.
Estava em casa quando recebeu uma ligação; era uma resposta de emprego. Ele ficou muito animado e foi até o estabelecimento. Depois de contratado, já começou a trabalhar naquele mesmo dia. Após o término, enquanto voltava para casa, avistou em um beco algo que lhe chama a atenção. Era um quadro jogado no lixo. Era uma pintura muito bonita, uma paisagem. O sol era de uma cor laranja muito forte, as árvores bem verdes e frondosas, uma casa próxima de um lago. Aquela imagem deixou Antônio inquieto e pensativo:
− Quem jogaria uma obra de arte dessas no lixo? Se está aí, ninguém mais a deseja. Vou levá-la. Seria um crime deixar uma coisa tão bonita se perder.
Ele não contou muito tempo, pegou o quadro e o levou para sua casa. Chegando lá, colocou a sua nova aquisição na sala em frente a sua poltrona, onde ficava a admirá-la.
− Agora, parece que as coisas estão melhorando. Além de conseguir um emprego, também achei essa beleza de quadro.
Antônio ia bem alegre para o trabalho, cumprimentava a todos e buscava fazer o melhor que podia. Rapidamente, começou a ser odiado pelos seus colegas de trabalho, pois, por seu bom desempenho, conseguiu galgar alguns degraus e, em pouco tempo, já era o chefe de alguns deles. Ele não sabia que, pelas suas costas, seus colegas falavam mal dele, mas percebia que as pessoas se afastavam ou paravam a conversa quando ele chegava. Ele começou a ficar bem triste por causa da situação. Ao chegar em casa, naquela noite, notou que o quadro estava com uma parte desbotada, como se tivesse sido molhado. Era apenas na parte inferior direita, cerca de um palmo, mas o bastante para deixá-lo desapontado e confuso, pois não sabia o que havia ocorrido. Ele foi dormir. Ao amanhecer, acordou com uma grande ideia na mente, convidar todos os seus colegas para irem até a sua casa. Isso apagaria uma possível má impressão deixada por ele. Era isso que ele pensava. Esse novo projeto o deixou mais alegre.
Depois de tomar café, lembrou-se de ir olhar o quadro para ver melhor o estrago, porém, a pintura estava perfeita. Não havia sinal de qualquer tipo de avaria. Antônio fala consigo mesmo:
− O que o cansaço não faz com um homem, até coisas estou imaginando. Juraria que, ontem, havia visto uma mancha horrível na ponta do quadro. Será que foi um sonho? Mas, se foi, era muito real. Bem, menos mal! Meu quadro está perfeito, e todos, certamente, irão gostar dele.
Antônio foi as pressas ao seu lugar de trabalho para esperar cada um de seus colegas e convidar um por um, isso pareceria bem mais pessoal. Assim, todo que chegava era convidado para a confraternização. Não querendo ser grosseiros, alguns inventavam desculpas, outros diziam que estariam ocupados, outros, confirmaram, mas sem nem uma intenção de ir. Alguns, porém, pensaram o seguinte:
− Deve ter comida, vamos aproveitar!
Estes apareceram na casa de Antônio na hora. Eram apenas dois, mas que, além de irem só para se aproveitar, ainda queriam conhecer a casa para falar mal. Ao chegarem, Antônio, um pouco contrariado, por ver tão poucos, não se deixou abater, mas os recebeu com muita alegria.
− Sejam bem-vindos, caros amigos. Fiquem à vontade.
Eles começaram a reparar na casa humilde de Antônio e faziam gracejos. Algo lhes impressionara, o quadro. Eles diziam entre si:
− Que quadro horrível! Como alguém coloca uma imagem tão feia logo na entrada da sala?
 Quem colocaria uma casa velha caindo aos pedaços?
− Você está ficando maluco!!! É uma mulher decrepita.
Eles estavam impressionados e discutindo entre si, pois cada um enxergava uma coisa diferente. Quando Antônio voltou da cozinha, encontrou-os discutindo sobre a pintura.
− Estão admirando o meu quadro? Essa paisagem é muito bonita. E pensar que achei jogado em um beco velho. O que vocês desejam beber, suco ou café?
Eles estavam tão fora de si que não aceitaram nada do que lhes foi oferecido. Desculpando-se e dizendo que tinham vindo só de passagem, eles, rapidamente, foram embora. Antônio ficou sem entender nada. Depois de saírem, começaram a pensar que deveriam pegar aquele quadro para descobrirem o que estava acontecendo. Eles combinaram que iriam aproveitar o tempo em que Antônio estava fora, no trabalho, e dariam um jeito de entrar e pegar o quadro.
No dia seguinte, colocaram em prática seu plano. Esperam a chegada de Antônio e com uma desculpa que precisavam resolver alguns problemas, saíram para furtar o quadro. Eles conseguiram arrombar uma das janelas da casa e entraram. Cada um ficou parado olhado para a pintura como se estivessem hipnotizados, não conseguiam se mexer, cada um enxergava a mesma imagem do dia anterior. De repente, um deles dá conta de si. Ele estava dentro de uma casa abandonada e muito velha. Essa casa estava ficando cada vez mais apertada e o cercava. Ele tentava fugir, mas não conseguia. Por fim, a casa o espremeu. O segundo, da mesma forma, como acordado de um transe, vê uma mulher em estado de decomposição chegando perto dele. Ela o abraça e sua podridão começa a corroer sua carne destruindo-o totalmente.
Antônio chega em casa e percebe que a janela estava quebrada. Rapidamente corre e olha se não algo havia sido roubado, mas encontra tudo em perfeito lugar. Aquilo o deixou intrigado.
− Quem quebraria uma janela só por maldade? Esse mundo está cada vez pior.
Antônio senta-se em sua cadeira e fica admirando a sua bela obra de arte que parecia estar mais bela do que nunca.



sábado, 9 de março de 2019

Contos & Crônicas - A verdadeira história de Caim e Abel


No fim de uns tempos, Abel e Caim decidiram oferecer ofertas ao Senhor. Abel era pastor e trouxe o melhor dos animais. Caim era lavrador e trouxe o melhor das frutas. Ambos chegaram juntos para fazer suas ofertas.
− Vejo que trouxe um cordeiro. Espero que esse seja especial, pois é muito pequeno para servir como uma boa oferta.
Caim falara com um ar de superioridade em seus olhos, com um queixo bem alto, desprezando a oferta que seu irmão havia trazido. Abel ficou um pouco desconsertado, por que aquele era o melhor dos animais que possuía.
− Meu irmão, suas frutas são muito bonitas. Com certeza o Senhor vai gostar delas. Eu decidi trazer o cordeiro, pois nosso pai contou a história das roupas feitas de peles e todo o símbolo da morte do cordeiro.
Caim foi o primeiro a levar a sua oferta diante do altar, mas nada aconteceu. Logo em seguida, Abel trouxe o seu cordeiro, imolou-o e queimou-o. Assim que o sacrifício foi feito, uma voz do céu clamou:
− Abel, sua oferta me vem como aroma suave.
Ao ver aquilo, Caim ficou extremamente irado e decidiu acabar com a vida de seu irmão. Começou a planejar como faria isso. Abel costumava sair e levar o seu rebanho para comer a caminho de um dia de viagem. Caim, por saber bem do hábito de seu irmão e do trajeto, foi antes, cavou um buraco, deixou tudo preparado para matar seu irmão. Ninguém iria saber.
− Depois dele desaparecer, irei, eu mesmo, procurá-lo. Direi que, certamente, foi comido por algum dos animais selvagens. Isso encobrirá qualquer suspeita contra mim.
Tudo estava ocorrendo como Caim planejou. Ao chegar antes, escolheu um bom esconderijo e ficou à espreita de seu irmão. Porém, quando estava prestes a dar cabo de Abel, ouviu uma voz que lhe dizia:
− Eis que o pecado está à porta, cabe a você dominá-lo. Se você agir corretamente, receberei sua oferta.
Ao ouvir aquelas palavras, Caim ficou pensativo, mas, mesmo assim, continuou com sua empreitada. Foi sorrateiramente se aproximando de seu irmão com o pedaço de pau nas mãos. Quando estava prestes a matar Abel, decidiu não fazer. Ele abraçou seu irmão que teve um susto.
− O que você faz aqui, irmão?
− Vim ver o seu trabalho, irmão. Também queria lhe dizer que vou embora. Vou tratar de alguns assuntos, depois volto. Até mais, irmão.
− Abel ficou triste pela notícia da partida do irmão e lhe deu dez cordeiros de presente.
Caim foi embora e fundou uma cidade. Ele mudou seu nome e passou a se chamar Pital. Ele colocou seu nome na cidade que construíra e em todos os seus negócios. Ele prosperou muito e desenvolveu várias invenções. Conseguiu implementar na área da agricultura uma forma de produzir muitos frutos e cereais. Ele tornou-se, também, um perito em arquitetura, produzindo os melhores materiais para casas e todo tipo de construção. Também desenvolveu várias formas de reprodução de animais, e assumiu todo o comércio de carnes da região. Caim tornou-se muito rico e seus negócios iam se expandindo cada dia mais. Ele começou a comprar todas as terras desde a sua cidade até o lugar de sua antiga moradia. A cada lugar em que ele chegava, comprava todas as propriedades e fazia com que os produtores e comerciantes falissem e viessem trabalhar para ele. Depois de cem anos, Caim resolveu voltar para encontrar-se com seu irmão. Trocou sua vestimenta requintada por uma mais simples, para não aparentar riqueza.  Ao vê-lo chegar, Abel, muito alegre, abraçou-o e preparou um jantar.
− Como vai, Abel? Como estão seus filhos? E os rebanhos?
− Muito bem, meu irmão. Apesar de que um homem chamado Pital tem assolado nossa região. Ele comprou tudo o que pôde. Todos nós fomos obrigados a trabalhar para ele. Não temos mais terras ou animais. Meus filhos vivem praticamente para o trabalho e não tem direito a quase nada. Eu já estou velho e doente, mas ainda preciso trabalhar para manter a casa.
Caim olhou com uma cara muito assobrada para esconder a alegria que estava sentido em ver o sofrimento de seu irmão. Ele comeu e bebeu como se aquela fosse a melhor refeição que já tivera. Ao voltar, depois desse encontro, decidiu Caim tornar ainda pior a situação de seu irmão e dos filhos dele. Ele aumentou a carga de trabalho e baixou o salário. Algum tempo depois, Caim foi encontrar com seu irmão. A recepção foi a mesma, apesar das penúrias.
− Veja, irmão, já vendi quase tudo o que tenho, só me resta este pequeno cordeiro que estou guardando para ofertar ao Senhor. Gostaria de vir comigo na próxima semana fazer esse sacrifício?
− Sim, claro. Irei com maior prazer.
Ele não conseguia esconder a sua alegria em ver seu irmão passar por tamanha dificuldade. Mas, ainda havia algo a fazer. No dia do sacrifício, Caim mandou um de seus empregados, que cobravam as dívidas, receber os débitos de Abel. Sem ter com que pagar, ele teve o seu cordeiro tomado de suas mãos. Caim assistia a tudo com imensa satisfação. Abel saiu desconsolado para sua casa. Caim continuou ali, diante do altar, olhando-o fixamente. Então, ouviu uma voz que dizia:
− O homem só muda a forma de fazer o que o coração manda.  

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Literatura & Religião - A depressão de Crusoé


A depressão é a doença do século. Não é difícil encontra alguém que passou ou esteja passando por depressão. Essa é uma triste realidade. Muitas pessoas que passaram por ela falam de uma tristeza grande que abate suas almas. É como se houvesse uma solidão, mesmo estando rodeado de pessoas, como se todas as coisas perdessem o sentido, o propósito.

A depressão pode acontecer por variados motivos e a falta de esperança de que ela vai passar é algo que assusta. Se alguém tivesse todos os motivos para entrar em depressão tipo, um grande acidente acontecesse em sua vida, ou todas as pessoas que estivessem ao seu lado morressem, ou ficasse sozinho em um lugar sem poder sair será que ainda havia possibilidade de não padecer? Sim, esse alguém é Crusoé.
Depois de passar por um naufrágio onde toda a tripulação morreu, Robinson Crusoé ficou sozinho em uma ilha deserta. Ele descreve sua situação: “... a minha situação era horrorosa: porque eu estava molhado e não tinha fato para me secar; tinha fome e nada tinha para comer; tinha sede, e nada tinha para beber; estava fraco, e nada tinha para me fortalecer; não tinha mesmo outra perspectiva senão a de morrer...”
Talvez, a melhor saída fosse desistir logo. Mas essa não foi a sua atitude, apesar de todas as circunstâncias contrárias, ele continuou a lutar para se manter vivo. Algumas pessoas fixam seu olhar nos problemas e dificuldades da vida e por lá mesmo ficam. Crusoé teve seus momentos difíceis “estas reflexões arrancavam-me lágrimas”, porém, decidiu procurar meios para sobreviver. Buscou nos restos do navio tudo o que poderia auxiliá-lo, apesar das dificuldades. É bem interessante esta imagem e serve como analogia para a reconstrução da vida que começa, por muitas vezes, não da negação dos problemas passados, mas por utilizá-los como meio de chegar adiante.
Alguém que sofre de depressão não está isolando em uma ilha física, mas há um sentimento semelhante de solidão e a falta de esperança, como se não houvesse qualquer tipo de saída, nenhuma luz no fim do túnel ou um navio no horizonte. Todas as perspectivas parecem sumir. No entanto, durante o tempo em que ficou preso na ilha, Crusoé teve a oportunidade de refletir sobre sua circunstância adversa e diz: “Aprendi a dar mais atenção ao lado bom da minha situação do que ao mau; a considerar aquilo de que gozava, antes do que sentia falta, e achar às vezes nesse método uma origem de consolação secretas.” É certo que ter essa visão durante a tristeza profunda é algo difícil, porém, é algo necessário para se manter firme e sair da depressão.  
Aliado a isso e, certamente, mais importante e inestimável para o cristão é a certeza de que há alguém com quem sempre pode contar, que está sempre presente e conhece seus problemas “Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hebreus 4:15). Jesus é o Senhor que está junto com seu servo durante os dias difíceis, ajudando-o e compreendendo-o, pois ele conhece as fraquezas do próprio homem. Na ilha, nunca estamos sozinhos, Jesus sempre está conosco. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Contos & Crônicas - Ida ao dentista





Augusto não gostava de ir ao dentista, principalmente por causa do barulho que o motor fazia. Ele tremia de medo apenas ao pensar naquele “aparelho de tortura”. Estava ele  sentado esperando sua vez. O consultório era muito aconchegante. As paredes eram revestidas com um papel cor de creme com alguns desenhos. Havia um sofá marrom e três cadeiras ao lado de onde Augusto estava sentado. Um centro de vidro com várias revistas em cima estava sobre um belo tapete de camurça. Atrás do balcão, de frente ao sofá em que o Augusto estava sentado, ficava o lugar da recepcionista, mas ela não estava presente. Havia uma porta ficava ao lado do balcão, a qual levava ao lugar tão temido. Ele olhava com grande ansiedade para a porta, esperando que ela nunca abrisse. Para tentar acalmar-se, pegara uma das revistas, mas não conseguia. Apesar de ser um lugar agradável, a cada minuto que passava o ar ficava mais rarefeito, as mãos suavam tanto que ele precisava ficar enxugando-as na roupa. Seu coração estava acelerado e a boca seca. Ele pensava consigo mesmo:
− Todas as vezes que venho ao dentista é essa agonia. Será que nunca vou me acostumar com isso?! Maldito dente, por que inventou de doer? Se conseguisse aguentar essa dor, não viria a esse lugar de tormentos.  
As horas pareciam não passar, apesar de só estar ali por meia hora, parecia uma eternidade. Augusto ficava em um dilema, de um lado queria que o tempo passasse logo e chegasse sua vez, do outro, gostaria de que ele parasse e não fosse preciso entrar naquela sala. Queria ir embora a todo tempo, mas, havia algo que não o deixava sair: a dor.
Era uma dor aguda e constante. Aumentava durante a noite e parecia que alguém estava martelando a sua cabeça. Somente por isso é que Augusto estava sentado naquele consultório. A dor não o deixava dormir.  
De repente, ele ouviu um barulho semelhante ao som que o aparelho de obturação faz, porém, extremamente mais alto. No entanto, ele pensou:
− Como estou assustado! A cada vez que preciso vir ao dentista o barulho desse motor infernal fica pior. 
 De repente, Augusto ouviu um berro. Seu coração disparou. Ele ficou muito impressionado. Mas não sem razão. Foi um grito aterrorizante.
− O que estará acontecendo? Algum acidente? 
Subitamente, a auxiliar sai com as mãos meladas de sangue e diz:
− Está tudo sob controle!
Augusto começou a tremer, quase não conseguia ficar em pé. Ele estava aterrorizado com aquela cena.
− Senhor Augusto, vou avisar a doutora que o senhor já chegou, aguarde só mais um instante.
Ao ouvir aquelas palavras, Augusto ficou branco e sem palavras. Para piorar a situação, um homem com a camisa manchada de sangue sai da sala interior onde os pacientes eram atendidos.
− Doutora, me perdoe! Isso nunca havia me acontecido. Talvez as mãos estejam ficando fracas com a idade.
− Não se preocupe, João. Ainda bem não foi nada de mais grave. Quando sua mão ficar boa, o senhor volta para furar a parede e pendurar o quadro. Mas vá ao hospital para refazer os curativos.
− Certo, doutora. Obrigado e vá desculpando o transtorno.
− Senhor Augusto?! Senhor Augusto?!!  

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Contos & Crônicas - Por uma faculdade feliz


 Por uma faculdade feliz 

       
Fernando Henrique era um rapaz que amava o conhecimento. Quanto mais ele aprendia, mais desejava conhecer. Era um leitor assíduo. Sempre que ouvia falar de um livro novo, rapidamente dava um jeito de comprá-lo. Apesar de não possuir muitas condições, por ser de família pobre e ter um emprego que não o remunerava bem, nunca deixou de adquirir um exemplar desejado. Por ser autodidata, não se importava muito com títulos, mas sua alegria era o conhecimento em si. Entretanto, forçado pelas circunstâncias, precisou se qualificar segundo a academia, isto é, conseguir um diploma para buscar um emprego melhor, que lhe rendesse mais dinheiro. Apesar de muito contrariado, pois entendia que a sabedoria não deveria ser adquirida para fins pecuniários, ingressou em uma Universidade. Ao chegar lá, ficou encantado com a grande biblioteca repleta. Havia tanto obras clássicas, como novos pensadores. Gostaria de passar o dia inteiro lá, e isso não seria difícil, já que não havia quase ninguém. As mesas estavam vazias, a não ser por um ou outro que estava mexendo no celular. Não havia filas para pegar livros, coisa que o deixou intrigado.
            Na primeira aula, ele estava animado com o que seria lhe ensinado, como seus conhecimentos anteriores, adquiridos com grande empenho, iriam ajudá-lo na compreensão dos novos saberes. Porém, logo de início ouviu a frase: “esqueçam tudo o que vocês aprenderam até agora.” Aquilo deixou-o desconcertado. Como poderia esquecer de tudo o que havia aprendido? A situação ficou ainda pior. Alguns professores tinham posturas bem interessantes. Eles ensinavam, mas não o que estava na cartilha e, sim, suas próprias filosofias partidárias. Alguns alunos já estavam tão envolvidos que achavam normal. Professor legal, nota dez para todos. Havia cobrança sobre determinados materiais, mas, apesar de cumprir tudo o que lhe era requerido, ele nunca sabia se estava certo ou errado, nunca tinha algo palpável que lhe dissesse se estava indo bem ou mal. Na verdade, apenas via um ok ou um x. Sempre ficava com uma dúvida sobre seu próprio conhecimento.
            A cada nova disciplina que iniciava, as mesmas perguntas: − Você não sabe isso? Não te ensinaram? Como você pode estar aqui e não ter lido tal livro? Seu professor anterior não apresentou o conteúdo? Então, você não está preparado para minha aula. Havia nele uma sensação de que o tempo ia passando, mas que não aprendia realmente, nada. Aos poucos, ele começou a pensar que era incapaz. Seu desejo por conhecimento foi desfalecendo, e somente ficando a vontade de acabar logo com aquele suplício. – Ainda falta um ano?
            Terminando a faculdade, Fernando Henrique voltou para o seu velho emprego.
                

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Contos & Crônicas - O Retorno do Iluminado


O RETORNO DO ILUMINADO


− Onde estou?
− Você acabou de morrer e está em lugar um de espera.
− Mas não teria acomodações melhores?
O lugar era sombrio, quente e tinha um ar pesado, era difícil de respirar. Não havia lugar para sentar, qualquer tipo de móvel, paredes ou objetos. Era, simplesmente, um lugar imenso e ao mesmo tempo extremamente apertado. Não havia outras cores, apenas o cinza. Era difícil perceber quem estava ao redor. Os espíritos que lá estavam, ficavam quietos, alguns sentados, outros em pé, com um aspecto de impaciência. Havia alguns seres luminosos que podiam ser vistos de longe. Esses se aproximavam dos espíritos e conversavam com eles. Em alguns momentos, uma forte luz os envolvia e eles desapareciam. Em outros, uma escuridão envolvia os espíritos e, gritando, também desapareciam.
− Sim, há. Mas sua vida não foi correta o suficiente para que você tenha esse direito. Enquanto estava em um corpo, você não agiu com amor, paciência e fraternidade. Deveria ter se importado mais com os que estavam sofrendo. Mas, ao contrário disso, vivia aproveitando dos prazeres mundanos e esbanjando tudo o que tinha em coisas supérfluas.
− Mas, eu não sabia que isso realmente existia. Pensava que era coisa de fanáticos. Fui ensinado na escola que somos fruto da evolução e, depois da morte, só resta ser comido por bicho. Por isso, decidi aproveitar tudo enquanto estava vivo e com saúde.
− Isso não era verdade, como você, agora, comprovou. Ninguém lembra das palavras do Iluminado “não sejas incrédulo, mas crente. Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” Muitas pessoas são enganadas para que não acreditem na vida após a morte e acabam vindo para lugares como este ou até piores.
− Como assim, piores?
− Há lugares piores para pessoas que cometeram grandes crimes. Dependendo de sua vida, você terá um lugar bom ou ruim para ficar. Quanto pior você for em sua vida, pior vai ser em sua morte, quanto melhor em sua vida, melhor em sua morte.
− O que foi aquela luz brilhante?
− Aquela luz brilhante é a passagem de um espírito para sua nova oportunidade de melhorar.
−  Como assim?
− A vida é um processo de crescimento em iluminação. Cada espírito criado tem a oportunidade de voltar e encarnar para pagar por seus erros e crescer, indo para um lugar de luz, um recinto melhor. Em cada plano de existência, o espírito tem dez oportunidades de refazer seus caminhos. Caso ele não consiga, irá para um lugar de mais trevas, até ser esquecido na solidão.
− Não acredito!
− Você vê e ainda não acredita?
− Quantas vezes ainda poderei voltar?
− Essa é sua segunda vez. Você terá dez oportunidades.
− Eu não me lembro de nenhuma das outras vidas.
− Sua memória é apagada para que você comece com a liberdade de escolher entre o bem e o mal.
− Como vou saber que existe este lugar e não viver de forma errada se não lembro?
− Você deve procurar os seus guias.
− Quando poderei voltar?
− Sua vida foi abreviada. Você deveria ter permanecido por mais dez anos. Porém, beber e dirigir e ainda falar ao celular não foi algo muito sábio a se fazer. Além disso, você abreviou a vida de outra pessoa. Portanto, vai ter que passar um ano, referente aos dez que deveria ter pago. Lembra daquela luz que você viu?
− Sim!
− Quando uma vida é abreviada na terra por outra pessoa, ela volta rapidamente como forma de compensação. Aquele espírito o qual foi levado é, justamente, a pessoa que você matou no acidente de trânsito.
−Então, vou ter que ficar aqui um ano?!
− Certamente!
− Como saberei o tempo se aqui não há sol ou relógio?
− Você não tem esse privilégio. Saber o tempo é uma dádiva que os homens possuem para medirem suas vidas e a compararem com a eternidade. Dessa forma, por saberem do pouco tempo que possuem, podem fazer o que é correto e ter sua existência com o propósito bem definido e certo, fazer o bem.
− Mas, o que ficarei fazendo aqui durante todo esse tempo? Não tem qualquer coisa aqui em que possa me ocupar, nem mesmo um livro para ler, apesar de que não gosto. Qualquer coisa é melhor do que nada.
− Está aqui e ainda não entendeu o propósito de quase nada. Esse tempo vai lhe ser útil para meditar sobre a realidade da vida. Não o desperdice como fez na terra.
Não havia muito o que fazer, exceto pensar sobre como foi a vida e aguentar aquele lugar sufocante. Os espíritos não conversavam entre si, cada um estava absorvido em relembrar o que fez de certo e de errado. Por vezes, ouvia-se um grito ou alguém chorando. Nosso personagem estava muito agoniado no início. Porém, depois de alguns meses, aceitou a situação. Relembrou sua forma de agir e percebeu o quanto havia sido egoísta. Vinha à sua mente todas as vezes que havia negado uma esmola, ou tratado alguém mal, mas o que mais o atormentava e entristecia era lembrar o quanto não aproveitou a sua família. Estava sempre em farras, não tinha tempo para os filhos nem para a esposa. Trabalhava muito e gastava tudo com estranhos. De repente, enquanto meditava em suas lembranças, um ser iluminado apareceu ao seu lado.
− Saudações! Sua hora de voltar para completar sua jornada rumo à iluminação é chegada.
− Graças ao Ser iluminado! Estou pronto para voltar e viver de forma diferente. Quero ser benigno e gracioso com as pessoas. ajudarei os pobres, visitarei os doentes e os encarcerados. Lutarei pelo direito dos menos favorecidos. Lutarei contra todas as injustiças e contra as ideologias que oprimem os indefesos, ninguém sofrerá em minha presença por abusos de poder dos poderosos.
− Muito bem! Você está pronto para voltar. Deixou o seu egoísmo e está disposto a sofrer pelo próximo, pelo indefeso. Pessoas levam, às vezes, séculos para compreender essa verdade áurea, mas você o fez rapidamente.
O ser luminoso tomou pela mão e uma luz os envolveu. Aquele era o rito de passagem e a alma já estava em um corpo pronto para realizar essas grandes obras que ajudariam a humanidade a crescer para a luz e, assim, encontrarem a paz e o verdadeiro amor. Três dias depois ele estava de volta. Logo em seguida, veio um ser iluminado e a luz os envolveu. Quatro semanas depois, ele estava ali e foi envolvido pela luz. Dois meses depois, apareceu novamente. Seis meses depois retornara. Oito meses depois, se encontrava ali, novamente. Nove meses depois, retornou. Antes que a luz o envolvesse novamente, ele perguntou:
− O que está acontecendo? Por que estou voltando tão rápido? Assim, não vou conseguir me tornar mais iluminado nem ajudar a ninguém encontrar a luz. Quase no momento em que entro, volto para aqui. Na última vez, sentia que estava quase para nascer, mas, de repente, me vejo aqui. O que aconteceu?

− Aprovaram outra lei! 

Contos & Crônicas - O orgulhoso

José era professor há mais de vinte anos. Possuía uma rotina muito rígida e era extremamente metódico. Acordava às 05:00 e lia seu jorna...