sábado, 24 de agosto de 2019

Contos & Crônicas - Uma viagem de volta ao sentido


Não podemos dizer que Damasceno era alguém que passasse despercebido. Um intelectual bem-sucedido, possuía aceitação em todos os campos dos quais participava. Reconhecido nacionalmente como um dos últimos senão o último intelectual vivo. Ele costumava dar palestras em Universidades e grandes eventos. Certa vez foi escolhido para escrever um texto de boas-vindas ao Papa, o fez com maestria. Escrevera mais de dez livros e vários artigos. Possuía um grande patrimônio adquirido durante muitos anos, mas não havia constituído família. Em um determinado momento de sua vida, teve um relacionamento, mas o trabalho tomou o primeiro lugar e ele não foi adiante.
De uma hora para outra, Damasceno desapareceu completamente. Nenhuma notícia, nenhuma explicação, nada. Algumas pessoas começaram a cogitar que ele havia morrido. Um jovem pesquisador estava fazendo uma biografia da vida de Damasceno. Ele decidiu sair em busca de testemunhas para enriquecer seu livro. Em uma de suas viagens, o carro que ele estava dirigindo quebrou. Para sua infelicidade, não havia ninguém próximo, já que ele estava indo em direção a um pequeno vilarejo no qual Damasceno costumava passar férias. Ele começou a caminhar em direção a esse pequeno lugar e, no meio do caminho, avistou uma pequena casa junto de um lago e um velho sentado à margem dele jogando comida para os peixes. Aquela visão o encheu de esperança. Ele pensou que houvesse um telefone para comunicar-se com alguém na cidade e um guincho pudesse vir ajudá-lo. Ao se aproximar, encontrou um senhor barbudo e de cabelos um pouco compridos. Ele estava vestido de forma simples.
― Senhor, meu carro quebrou na estrada, pode-me conseguir um telefone que tenha sinal para eu poder ligar e pedir ajuda?
O velho que estava sentado à margem do lago olhou atentamente e, sem respondê-lo, continuou na sua atividade de alimentar os peixes.
― O senhor não me ouviu?
― Sim, eu te ouvi muito bem. É costume das pessoas que estão precisando de ajuda não saudar e nem se apresentar àqueles a quem se dirigem?
O jovem olhou estarrecido! De fato, ele havia tratado o velho alguém que tinha lhe tinha a obrigação de ajudá-lo. Além disso, notou a sua total falta de percepção, pois se dependia daquele homem, pelo menos, deveria tratá-lo melhor. Além disso, percebeu que a linguagem utilizada por ele não correspondia a sua visão de um homem do campo. Ele olhou para o velho e viu que ele tinha roupas velhas bem largas. Um chapéu grande que o protegia do sol. Suas unhas eram sujas de terra, como quem acabara de tratar uma horta. Em um breve momento, ele deu-se conta de como seus preconceitos estavam modelando sua atitude.
― Desculpe-me! O senhor tem toda razão. Acho que foram as circunstâncias que me deixaram irritado e me fizeram perder a noção de como agir.
― Suas desculpas culpam todas as coisas, menos a si mesmo. Não são de fato desculpas, mas desculpas para não se desculpar verdadeiramente. Toda desculpa pressupõe um erro admitido, mas você somente culpa outras coisas ou pessoas por seus erros. As circunstâncias e as pessoas podem ser difíceis, mas a maneira de agir não deve decorrer delas.
O jovem ficou surpreso, novamente, e pensativo com outra resposta tão bem dirigida e tão profunda. Mas não conseguiu esconder sua cara de desconforto. Talvez ninguém tenha sido tão sincero com ele em toda a sua vida, não pelo menos com tanta profundidade. Apesar de ter seu ego ofendido, aquela figura misteriosa estava conseguindo ganhar sua atenção a tal ponto de que ele se sentia mais atraído para a conversa.
― Muito bem, senhor, posso começar novamente?
O velho olhou para ele e sorriu ― com certeza ― respondeu convidando com um gesto para sentar-se ao seu lado.
― Bom dia! Meu nome é Eduardo, muito prazer em conhecê-lo. Estou precisando de ajuda com o meu carro que quebrou a alguns quilômetros. O senhor teria algum telefone que eu pudesse ligar para conseguir ajuda? Ah, aliás, como é seu nome?
― Bom dia, Eduardo. O prazer é meu. Meu nome é Damasceno. Não posso ajudá-lo com respeito ao telefone, pois não possuo nenhum. Um carro que leva algumas pessoas e mantimento para o vilarejo mais próximo passa três vezes por semana. Mas, como hoje é sexta, só virá segunda, isto é, daqui a dois dias. O que posso lhe oferecer é abrigo e refeição enquanto espera.
― Que coincidência! Eu vim para esse lugar, pois estou escrevendo uma biografia de um homem muito importante que sumiu há dez anos e o nome dele também é Damasceno.
― Qual o interesse em fazer uma biografia?
― Damasceno foi um homem genial, um verdadeiro intelectual. Ele era muito famoso e, de uma hora para outra, sumiu sem deixar rastros.
― Por que fala dele no passado?
― Acredito que esteja morto. Tenho uma teoria do que tenha acontecido.
― Gostaria de ouvi-la.  
― Ser alguém bem-sucedido causa muito inveja. Damasceno, certamente, era muito invejado e odiado. Ele não deixaria tudo de uma hora para outra, toda sua fama, suas conquistas, sua glória. Acredito que pessoas muito poderosas deram cabo dele, isto é, mataram-no.
― Parece-me uma teoria muito boa. Mas, se ele somente tiver saído e largado tudo?
― Nunca! Isso seria impossível.
― Bem, uma teoria deve analisar todas as possibilidades e excluir aquelas que não correspondem com a realidade. Você já fez esse julgamento intuitivamente, mas não explicou por que desistiu dessa possibilidade.
― Não compreendo.
― O que você vê à sua frente?
― Um lago!
― Veja, este é justamente o seu problema e era o meu. Até um quadro com apenas um ponto no meio é digno de um livro para explicá-lo. Sua percepção é muito frágil, para ser polido com as palavras. Você rejeita a primeira teoria, pois não quer aceitá-la. Sua predisposição é para negá-la, mesmo sem analisá-la minuciosamente. A intuição e o senso comum não são ruins, mas devem ser utilizados com todo o cuidado.
― O senhor quer dizer que só acredito naquilo que quero ver?
― Exato! Mas não somente isso. Você vê a realidade de acordo com suas concepções, porém, a maioria das pessoas são ensinadas a não perceberem nada. Elas veem com os olhos cegos de outras pessoas.
― Como assim?
― Veja, sua resposta à minha pergunta foi bem simples. Um lago. Ela não está errada, mas é preparada e simples demais. Sua mente foi acostumada a não ter profundidade. Você nem sequer parou para pensar no que iria dizer.
Houve um momento de silêncio. Eduardo estava olhando para aquele lago e pensando em como esse homem possuía uma sabedoria tão grande morando em um lugar tão isolado. Teria ele estudado ou aquele conhecimento viria somente de suas meditações? A noite estava já chegando, mas ele quase não vira o tempo passar. Aquela sua pressa desaparecera. Ele, agora, está intrigado em descobrir mais sobre esse homem que ia contra toda a lógica que ele seguira até aquele momento. Alguém tão inteligente poderia conseguir muitas coisas, ser conhecido, ganhar dinheiro, mas ele morava em uma casa distante de tudo, quase isolado.
― Vamos entrar, Eduardo. Já está anoitecendo e acredito que você esteja com fome. Vamos preparar o jantar.
A casa de Damasceno era bem simples, mas possuía tudo o que era necessário para sua subsistência. Ela era toda feita madeira. Havia quatro compartimentos: a sala, a cozinha e dois quartos. Na sala, duas cadeiras de balanço e um centro com um tapete bem rústico em baixo. Na cozinha havia uma mesa com três cadeiras que parecia ter sido feita por ele mesmo, pois era um tronco de uma grande árvore, sem muitos acabamentos. O fogão era a lenha e havia algumas panelas de barro. Damasceno preparava o jantar. No quarto pequeno, ele viu uma grande estante cheia de livros. Dirigiu-se até lá e viu vários títulos bem conhecidos.
― Pelo que vejo, o senhor gosta muito de ler. A leitura é um bom passatempo.
― Na verdade, a leitura é mais do que um passatempo. Ela é um instrumento poderoso tanto para o bem quanto para o mal. Um bom livro pode abrir o mundo e espelhar a realidade, trazer alguém da escuridão para a luz. Porém, um livro ruim pode cegar até o mais sábio dos homens. Como saber se um livro é bom ou ruim se o conhecimento vem através deles? Eis um questionamento para você.
― Não consigo pensar de estômago vazio ― disse Eduardo com um sorriso forçado. Ele parecia perdido diante de tantas frases profundas. Ele nunca teve uma conversa tão profunda. Todas as respostas dadas por Damasceno pareciam ter sido pensadas por várias horas. Não havia nada de superficial ou rápido. Ele possuía uma serenidade no olhar, como se tudo tivesse o máximo valor, até as coisas mais insignificantes. Porém, ao mesmo tempo, tudo era tão natural que, aparentemente, ele não estava preocupado com nada. Enquanto esperava o jantar, Eduardo ponderava seriamente no estilo de vida de Damasceno e comparava com a sua própria.
― Por que viver aqui sozinho, longe de todas as pessoas?
― Eu sabia que essa pergunta não iria demorar a aparecer. Porém, queria que antes você pensasse no inverso. Por que não viver sozinho aqui? Antes, vamos jantar, pois também não consigo pensar de barriga vazia ― Damasceno olhava sorridente para Eduardo. Este também riu e começaram a refeição. Depois de algum tempo comendo em silêncio, Eduardo enfatiza:
― A solidão não é algo bom para ninguém.
― De fato, ela é ruim. Por isso a evito.
― Como assim? Você mora só!
― Estar só não indica que você sofre com a solidão. Por vezes, estamos rodeados de pessoas, mas, ainda assim, somos solitários. Esse era o meu caso e foi uma das razões que me levaram a buscar este lugar. As coisas valiosas da vida se esvaem quando queremos apenas conquistá-las ao invés de vivê-las.   
Eles haviam terminado o jantar e Damasceno chamou Eduardo para sentar-se um pouco do lado de fora. Havia um alpendre na frente da casa de frente para o lago. Eles pegaram as cadeiras de balanço e foram sentar-se lá. A noite estava muito agradável; o vento vindo do lago dava um frescor. O cheiro de mato molhado causava uma boa sensação. Passaram algum tempo olhando para as estrelas. Eduardo estava admirado, pois, na cidade, não conseguia ver a quantidade e a beleza delas. Aquilo provocou nele uma alegria misturada com grande satisfação. Era uma das cenas mais belas que ele já tinha visto. Não havia palavras que pudessem descrever o que ele sentia, nem ele mesmo entendia de onde vinha aquele sentimento. Damasceno percebeu o seu leve, mas profundo sorriso nos lábios e o brilho nos seus olhos. Pensou em dizer alguma coisa, mas apenas deixou-o em sua contemplação.     
Passando cerca de meia hora, Damasceno levantou-se para ir dormir. Ele sabia que teria um dia muito atarefado e, por isso, precisava descansar. Ele foi e preparou o lugar de descanso de seu hóspede.
― A sua cama já está preparada, pode ir descansar quando quiser.
― Obrigado! Vou ficar aqui mais alguns minutos.
Eduardo estava desfrutando de um momento diferente, onde percebia que a simplicidade trazia uma sensação alegre. Muitas coisas preenchiam sua vida, mas aquilo era diferente. Naquela hora ele não possuía nada daquilo que estava acostumado e, incrivelmente, não fazia diferença. Parecia que seu ser se enchia de uma leveza, como se viver não fosse um fardo, mas um privilégio. Todas as suas preocupações haviam sumido, ele apenas sentia uma grande tranquilidade, uma paz de espírito. E ele balbuciou:
― Talvez valesse a pena trocar tudo por uma vida mais leve!
Aquelas palavras voltaram para ele como uma flecha que acerta o alvo. Ficou pensativo e inquieto. Se em pouco tempo ele teve uma experiência em que poderia, ao menos naquela hora, largar sua vida por outra menos glamurosa, mas com mais significado, talvez, Damasceno também pudesse. Sua ideia sobre a morte do protagonista de seu livro abalou-se. Seriam os nomes não só uma coincidência? Sua mente começou a fervilhar. Decidiu entrar e tentar dormir. O sono demorou a chegar, pois estava eufórico com a ideia em sua mente. Mas, por fim, caiu no sono.

O CAFÉ DA MANHÃ

Pela manhã, acordou com o barulho feito por Damasceno que preparava o café. O fogão era a lenha e havia, sobre a mesa, cuscuz e tapioca, além de algumas frutas. O cheiro do café estava tomando a casa, era muito agradável.
― Bom dia, Damasceno.
― Bom dia, meu jovem. Descansou?
― Sim, obrigado.
Ambos se sentaram e começaram a tomar a refeição. Eduardo olhava para Damasceno perscrutando-o, procurando semelhanças para ter suas ideias confirmadas. O velho pergunta:
― Algum problema?
― Não, nenhum.
― Como o senhor veio morar em um lugar tão longe? Percebe-se que não é daqui.
― Por quê?
― Acredito que seu conhecimento é de um homem bem estudado. Você tem uma livraria no quarto e fala muito bem. Provavelmente, foi alguém importante e, por algum motivo, veio distanciar-se de todos.
― Por que esse interesse em saber minha origem?
― Só curiosidade mesmo. Estava pensando ontem que esse lugar é muito tranquilo. Talvez você tenha se cansado da vida na cidade grande e decidiu ter momentos de paz, longe de toda a correria.
― Essa ideia foi espontânea, como em um ócio criativo, ou você juntou as peças?
― Não sei dizer!

A HISTÓRIA DA VIDA REAL, A MORTE DO SONHO

― Bem, eu nasci aqui próximo. Meus pais criaram-me de forma muito humilde, mas com tudo o que uma criança precisa para ser feliz. Eles me ensinaram muita coisa sobre a vida e sobre o campo, por isso gosto tanto dele. Quando tinha dezoito anos, fui morar na cidade grande. Todos os meus professores diziam que lá estava o futuro. Lá eu poderia ganhar a vida, aprender e conhecer outras pessoas, quem sabe até viajar o mundo inteiro. Eu acreditei. Como toda criança que gosta de sonhar e descobrir se esses sonhos podem se tornar realidade, eu fui atrás deles. Não durou muito! A parte feia dos sonhos é que quando se tornam realidade, eles morrem. A beleza de acreditar em contos de fadas é saber que eles são apenas histórias, não são reais, mas nos preparam para enfrentar a realidade. Rapidamente, consegui tudo o que quis. Então, voltei para cá.
― Como assim? Como tudo aconteceu?  
― Você está tão interessado nos detalhes que nem notou a parte mais importante de minha história.
Aquela frase deixou Eduardo sem jeito. Ele não sabia o que dizer, pois parecia que havia magoado seu tão hospitaleiro amigo. Ele baixou a cabeça por alguns instantes e pensou em tudo que lhe foi dito. Damasceno mantinha sua afeição tranquila, como se nada tivesse acontecido. Ele continuou tomando seu café. Eduardo estava fazendo um esforço incrível para descobrir qual era a parte mais importante da história. Mas parecia em vão. Algo que ele não estava acostumado, pois Damasceno pensava de uma forma que não correspondia à sua maneira. Tudo parecia ser profundo. Então, ele disse para si mesmo que deveria olhar para as coisas simples. Como uma luz, isso brilhou na sua mente. Ele entendeu que precisaria atentar para as coisas simples, para uma declaração que, para ele, não teria o menor sentido ou valor.
― O que todos desejam é que seus sonhos sejam realizados, como isso seria ruim?
― Os sonhos são motivadores para que as pessoas consigam suportar e viver na realidade. Caso eles sejam todos cumpridos, não há mais motivo para esperar o que quer que seja. Quando eles são realizados, ainda há a sensação de que falta algo, mas não se sabe o que é, pois não há mais sonhos. Somente se houvesse um lugar onde juntamente com o cumprimento do sonho também saciasse o desejo por sonhar, haveria a verdadeira felicidade. Ao ter tudo, mas sem estar completamente saciado, não há alegria duradoura, pelo contrário, uma tristeza imensa adentra o coração, porque ao chegar ao final de tudo, ao final do caminho, não há mais nada a buscar, mesmo que haja o desejo de ir além. Eu cheguei lá. Não por ter tudo, mas por ter tudo o que sonhei. Então, decidi voltar e aprender a sonhar novamente.
― Então, Damasceno, você está dizendo que é melhor não ter sonhos ou não os realizar? Pois esse lugar não existe. Não haverá qualquer lugar neste mundo em que possamos estar satisfeitos, pois sempre desejamos algo. Mas se quando chegamos nesse algo não encontramos satisfação e se não ter sonhos é impossível, logo, a nossa vida sempre será uma grande tristeza, quer não consigamos, quer consigamos. Isso é uma brincadeira?
― Bem, a realidade não é algo tão agradável! Por essa razão, alguns dizem que a ignorância é uma virtude. Mas, talvez, haja um mundo, não este, mas outro, em que possamos sempre sonhar e sempre ter os sonhos realizados. Não é muito melhor assim?
Damasceno deu uma grande risada, bateu nas costas de Eduardo e levantou-se para ir realizar os seus trabalhos cotidianos. Eduardo ficou por alguns instantes olhando-o intrigado. Sua cabeça estava fervilhando. Ele se impressionava, pois, a cada tentativa de descobrir sobre a história que veio em busca, mais se interessava nesse velho homem que possuía grandes respostas para perguntas que ele mesmo atinava. Quem era aquele homem? Eduardo sentia que deveria conversar mais com ele. Era como um imã que o puxava. Não havia nada de mais nele, isto é, sua aparência e postura não se amoldavam as que Eduardo estava acostumado. Ele não buscava apresentar sabedoria nem mesmo gabava-se de qualquer experiência. Não queria ser conhecido ou chamar a atenção. Pelo contrário, ele se ocultava. Talvez, era justamente isso que atraía a atenção do jovem.
― Espere, Damasceno! Irei contigo.

UMA LIÇÃO SOBRE HUMILDADE

Damasceno cultivava tudo o que precisava para sua subsistência. Ele possuía algumas vacas, de onde tirava o leite. Plantava suas hortaliças e seu sítio era repleto de árvores frutíferas. Pescava quando desejava no lago próximo de sua casa. Quando, nas raras vezes, precisava de algo, ia até o vilarejo.
― Não sei como você consegue viver apenas com isso! Eu teria muita dificuldade. Para passar um final de semana, até que vai, mas viver, é outra história.
― Do que você precisa para viver, Eduardo?
― Acredito que para viver, não muito, mas para viver bem, só com isso não basta.
― Você gostaria de tirar o leite da vaca? Vamos, não é difícil. Basta apertar e puxar.
Eduardo estava todo sem jeito, e muito temeroso. Ele nunca havia feito aquilo na vida. Talvez pensasse que a vaca poderia pisá-lo ou que não conseguiria retirar o leite. Aos poucos foi pegando o jeito. Ele olhava para Damasceno sorrindo. Estava extremamente alegre. De repente, a vaca se mexeu e ele assustando-se caiu do banco e derramou todo o leite. Damasceno começou a rir juntamente com Eduardo. Depois de levantar-se e pedir desculpas, começou novamente o processo.
― Tome um pouco ― disse Damasceno.
Eduardo provou do leite retirado por ele mesmo e um senso de completude tomou conta dele. Estava alegre e satisfeito, mas, ao mesmo tempo intrigado como algo tão simples levou-o a sentir-se tão alegre.
― Gostou da experiência?
― Sim, foi muito interessante.
― Será que sentiria a mesma coisa se fizesse novamente?
― Provavelmente, não!
― Isso não acontece porque a beleza de retirar o leite de uma vaca acaba, mas porque somos ensinados a descartar as coisas como se o valor delas tivesse perdido depois de um tempo. Se a cada dia você reconhecesse o qual belo é esta cena, todos os dias seria uma experiência única e maravilhosa. Logo, não precisaria de muitas coisas para encontrar alegria e viver bem, apenas modificar a forma como se olha para tudo. Semelhante a uma criança que não se cansa de ver as mesmas coisas, o que nos deixa até aborrecidos.
Ambos seguiram juntos enquanto Damasceno dava comida aos animais do sítio. Eduardo olhava tudo com muita atenção. Apesar de já ter visto aquelas cenas outras vezes, nunca tinha percebido que as coisas chamadas simples têm um grande valor, só precisa de um olhar perspicaz.

A PACIÊNCIA

― O que acha de comermos um peixe no almoço?
― Acho uma boa ideia.
― Vou buscar uma vara e algumas iscas. Essa será sua tarefa.
― Eu não sei pescar ― retrucou Eduardo ―
― É bem simples! Basta colocar a isca no anzol e esperar.
Eduardo sentou-se debaixo de uma árvore que lhe provia a sombra necessária para a pescaria. Damasceno foi até em casa preparar o almoço. Depois de meia hora, Eduardo já estava impaciente. Ele não entendia por que ainda não conseguia pegar nada. Indagava-se se havia alguma forma específica de puxar a linha ou um lugar apropriado. Começou a mover-se de um lado para o outro, mas nada. As iscas estavam acabando, o tempo passando, e nada dos peixes. Ele não via outra opção senão chamar o velho para poder explicar-lhe alguma técnica especial, ou dar uma lição sobre os tipos de peixe que havia ali e, assim, ter uma pescaria maravilhosa. Damasceno aproximou-se.
― Não pegou nada ainda?
― Não! Vou atrasar o almoço.
― Vamos tentar novamente.
Damasceno pegou a vara de pescar, colocou uma isca no anzol e sentou-se à sombra. Eduardo, sentando-se ao lado dele, esperava alguma palavra, mas ele permanecia calado. Então, ele pensou:
― O silêncio! Como não pensei nisso! Eu fiquei falando em voz alta e fazendo barulho, mexendo na água. Isso deve afastar os peixes.
Ele ficou sentado por mais de uma hora observando Damasceno que permanecia imóvel. O velho levantou-se e disse:
― Amanhã pegaremos um!
― Como assim? Perdemos esse tempo todo?
― Não perdemos tempo, apenas aprendemos a esperar um pouco mais. Nem tudo na vida está pronto para nos servir. Certas coisas demandam que esperemos para que aconteçam. Hoje não foi o dia de conseguirmos pescar, esperamos para amanhã.
― E o almoço?
― Comeremos outra coisa. Venha!

A REFLEXÃO

Após o almoço, Eduardo ficou muito pensativo sobre esses dias passados longe de tudo o que lhe era comum. Por incrível que lhe parecesse, pouca coisa lhe fazia falta. Parecia estar acostumando-se àquela tranquilidade. A companhia de Damasceno e suas conversas conseguiam prender-lhe toda a atenção. Mas um pensamento deixou-o apreensivo. Ele notou que não tinha raízes alguma que o prendiam na sua velha vida. Isso queria dizer que não possuía nada de valor que o fizesse desejar voltar. Começou a refletir sobre sua própria vida e notar que não tinha laços reais com sua família, não tinha amigos chegados, nem mesmo um relacionamento sério. Apenas um apartamento que lhe esperava todos os dias. Aquilo trouxe um sentimento de tristeza e vazio em Eduardo.
― Será isso que levou Damasceno a vir morar tão distante? Ele percebeu que não tinha nada real e decidiu isolar-se? Se for isso mesmo, não estou em condições de julgá-lo, pois estou do mesmo modo.
Outra ideia assustou Eduardo. Além de pensar no vazio da sua própria vida, começou a questionar-se sobre o propósito de sua viagem. Seria justo contar a história de Damasceno e estragar seu exílio autoimposto? Se eu contar sua história, revelando seu paradeiro, não faltarão repórteres e pessoas que ele não deseja ver. Por outro lado, se não contar, perderei a melhor história da minha vida e até futuros empregos.
― Parece que algo lhe preocupa, Eduardo!
― Não é nada, apenas coisas do trabalho. Essa maldição que atormenta a todos.
― Sim, o trabalho torna-se uma maldição quando perde o seu propósito.
― Como assim?
― Trabalhar não é ruim. O trabalho traz significado a nossa existência. Isso acontece quando encontramos beleza naquilo que fazemos. Pense um pouco na natureza. Cada um faz seu trabalho e, juntos, organizam todo o mundo.
― E quando o trabalho nos traz prejuízo? Muitas pessoas trabalham até morrer, enquanto outras pouco trabalham.
― O trabalho não é ruim, o que fazem dele, sim. Mas, até mesmo aqueles que são esmagados pelo peso do trabalho que lhes é imposto podem encontrar a beleza de ver o seu trabalho bem feito e encontrarem satisfação.
― Se o mundo fosse mais justo, isso não aconteceria.
― Não digo o mundo, esse conceito é muito vago. Mas se cada um de nós atentasse para a justiça, tudo seria diferente.
A noite já estava chegando e eles conversaram um pouco mais sobre o trabalho. Eduardo perguntava muito sobre o sucesso no trabalho, se algo valia mais do que isso. Ele queria que Damasceno explicasse o porquê havia largado tudo. Mas não conseguia uma resposta direta. Ambos foram dormir. Eduardo não conseguia esquecer de seu dilema. Estava angustiado. O Domingo passou muito rápido. Ele e Damasceno fizeram uma longa caminhada até uma cascata. Ele estava com um misto de alegria e tristeza. Aproveitava a beleza da paisagem e a boa conversa, mas a cada minuto ficava aflito por revelar o segredo de Damasceno. Eles voltaram para casa.

O RETORNO

Depois de tomarem café, Eduardo e Damasceno ficaram esperando que o carro viesse do vilarejo. Ao vê-lo, Damasceno acenou.  
― Bom dia, senhores.
― Bom dia, Senhor.
Eduardo contou a história e por sorte, havia um rapaz que trabalhava no lugar em que ele alugou o carro. Ele disse que o levaria e depois mandaria alguém para pegar o carro.
― Muito bem! Vou pegar minhas coisas.
― Damasceno, muito obrigado por toda a sua ajuda.
― Foi um prazer!
Eduardo chegou em casa e começou a escrever sua incrível história do grande intelectual que havia escolhido fugir de tudo e de todos. Ao terminar o seu trabalho, colocou numa gaveta. Não teve coragem de publicar. Voltou a sua vida normal.

UM ARREPENDIMENTO

Um ano depois, decidiu ir, novamente, à casa de Damasceno. Ao chegar no lugar, percebeu um homem de paletó em pé próximo ao que parecia um túmulo.

― Bom dia, Senhor. Estou procurando por Damasceno.
O homem virou-se e, para a surpresa de Eduardo, era Damasceno. Ele ficou muito impressionado.
― Você conheceu meu irmão? Ele faleceu há dois meses.
― Sim, eu o conheci. Um homem fantástico.
― Com certeza! Quando saí daqui e deixei minha família, ele ficou, cuidou de tudo. Sempre quis levá-lo para próximo de mim, mas ele nunca aceitou. Enquanto minha vida cheia de conquistas era vazia, a dele, era cheia de significado, de alegria. Eu deveria ter voltado para cá, mas agora é tarde.




terça-feira, 6 de agosto de 2019

Contos & Crônicas - A grande ideia


Judas havia se afastado um pouco do grupo, ele estava pensativo sobre um dos sermões proferidos por Jesus. Enquanto pensava, colocava a mão dentro da bolsa, pois amava o som que as moedas faziam ao baterem uma contra as outras. Ele olhava fixamente para os demais apóstolos e uma frase saia em um sussurro de sua boca:
― Meu trono vai ficar acima do deles!
Ele estava inebriado com a ideia de que iria estar no reino que Jesus prometera. Por muitas vezes, sonhava como todos os privilégios que teria quando esse momento chegasse. Quando acordava, buscava andar perto de Jesus. Ele cuidava para que não faltasse nada para o Senhor. Era o primeiro a perguntar se Jesus estava precisando de algo. Mas ficava muito inquieto quando não era chamado para ficar ao lado do Senhor em alguns momentos. Questionava a si mesmo a razão de Jesus escolher Pedro, Tiago e João. 
―Eles não têm a minha capacidade, são apenas pescadores.
Ele precisava fazer algo para merecer estar a frente de todos, ser o maior dentre os apóstolos. Ele lembrou de que Jesus falou que seria rejeitado pelas principais lideranças e até morreria. Uma ideia chegou à mente de Judas. Por que não adiantar as coisas?
― Vou entregar Jesus aos sacerdotes. Eles vão buscar a Jesus e ele vai se livrar com a minha ajuda. Eu me tornarei aquele que salvou o mestre, isso me colocará como maior dentre os apóstolos de Jesus.
Judas buscou rapidamente colocar seu plano em prática. Foi consultar os fariseus e lhes falar que poderia entregar o lugar onde Jesus estava. A liderança religiosa perguntou-lhe quanto ele cobraria pela informação. Iscariotes não havia pensado nisto, mas disse que trinta moedas de prata não seriam nada mal.
― Por que você vai entregar seu mestre?
― Estou cansado, pois já faz três anos que ando com ele e não ganho nada. Estou entregando-o, mas com uma condição, que vocês não façam nada de violento com ele.
― Não se preocupe! Apenas o prenderemos para que ele largue essa sedição contra a liderança dos fariseus e de César.
― A prisão precisa ser a noite, para evitar as multidões que o seguem. Vocês podem mandar apenas uns dois homens, ele não deixará os outros discípulos reagirem.
― Mas durante a noite será difícil reconhecê-lo.
― Eu irei até ele e darei um beijo, então vocês reconhecerão.
― Muito bem!
Judas saiu com suas trinta moedas de prata e muito feliz. Agora, ele iria mostrar toda a sua bravura para Jesus e isso atrairia a atenção de seu mestre. Ele o colocaria como líder dos apóstolos. Durante a noite, dois homens foram com Judas para prender a Jesus. Ele se aproximou e beijou a Jesus. Os homens que vieram com ele deram sinal para outros que estavam escondidos. Um grupo veio e levaram a Jesus com muita violência. Judas ficou assustado. Ele não poderia fazer nada. Todo o seu plano de tornar-se o herói foi destruído. Judas correu até os sacerdotes para reclamar que não havia sido aquilo que ele acordara. Mas eles não ligaram e expulsaram-no de lá. Judas, cheio de remorso, atirou as moedas fora, na direção dos sacerdotes. Ele correu e foi se enforcar. Antes de pular, ele disse:
― Algumas ideias vêm do Diabo!



― Mas eu só aproveito o que está no coração......

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Contos & Crônicas - Caçada aos elefantes



Era tempo de caça de elefantes. Todos os caçadores já estavam preparando suas armas para abater os animais. Durante todo o ano, eles esperavam ansiosamente por esse momento. Era uma janela muito curta, apenas uma semana, porém, era tempo suficiente para exibir o prêmio da caça, seja uma foto, ou o marfim. Faltava apenas dois dias, muitos já haviam gastado fortunas com os preparativos, quando uma notícia tomou todos os jornais. A Suprema Corte decidiu, depois de mais de trinta anos deliberando, acabar com a caça de Elefantes de uma vez por todas. Por muito tempo, leis foram fechando o círculo da caça, mas desta vez, todas as possibilidades de recorrer da sentença foram fechadas.
Para que essa decisão fosse cumprida, uma pena muito dura foi aplicada. Qualquer pessoa que fosse pega caçando elefantes seria presa por dez anos sem fiança e se matasse o animal seria condenado à morte. Houve muitos protestos por parte dos caçadores. Eles saíram com cartazes de protesto diante dos tribunais. Vários confrontos com a polícia. Advogados tentaram encontrar uma brecha na nova lei, mas foi tudo em vão. Algumas pessoas tentaram ainda caçar, mas houve uma força tarefa muito bem realizada e vários caçadores foram presos. Aquilo desanimou a maioria deles.
A sede da caça era semelhante à de um viciado. Muitos dos caçadores estavam sofrendo crise de abstinência. Eles necessitavam matar alguma coisa. Alguns começaram a caçar ratos, mas não era mesma coisa. Outros matavam baratas, mas não se contentavam. Por fim, quando já haviam quase desistido, surgiu uma esperança no final do túnel. Um dos advogados mais conceituados do país, que também era caçador, em um momento de bebedeira, conversando com um amigo, disse:
― Esses animais não são gente!
Seu amigo, ao ouvir isso, parou e ficou extático.
― O que aconteceu? Por que você ficou sério?
― Você é um gênio, meu amigo. Vamos voltar às nossas temporadas de caça.
― Como assim? Você quer ficar preso ou ser condenado à morte? Acredito que já bebeu o suficiente.
― Na verdade, você me deu uma grande ideia. Não precisamos parar de caçar, apenas modificar a forma de praticarmos nosso abate. E temos um bom álibi para isso.
― Você está me deixando confuso. Fale de uma vez.
― Não, precisamos ficar completamente sóbrios para discutirmos esse assunto. Isso vai mudar completamente a história da caçada no mundo inteiro. Você vai ficar famoso, meu amigo. Muito famoso.  
Não demorou muito tempo para que a nova ideia fosse levada aos tribunais. O conceito era muito simples. Eles alegaram que só seria considerado ilegal a caça de elefantes vivos, isto é, seria algo impossível caçar e matar algo que não tem vida. Daí, só seria crime se eles matassem um elefante vivo. O juiz pensou que era uma brincadeira, no primeiro momento e até riu.
― Que loucura é essa que você está proferindo. É lógico que só se pode caçar e matar algo vivo. Não me faça perder mais tempo.
― Muito bem! Estamos solicitando a liberação para estudo e apreciação dos elefantes enquanto eles dormem.
―  Como assim?
― Nós, caçadores, temos uma fascinação pelo animal morto. Olhamos, tiramos fotos, admiramos. Um elefante dormindo pode, pelos menos, aliviar essa parte do nosso sofrimento em não poder caçar. Não faríamos mal algum ao animal. Apenas colocaríamos algumas horas para dormir, enquanto, nos deleitamos. Muitos de nossos amigos estão sofrendo com transtornos por causa da falta da caçada. Alguns deles até já tiraram a vida, pois a caça era tudo para eles. Para evitarmos que mais incidentes desses ocorram, o que estamos pedindo é simplesmente a possibilidade de termos essa pequena alegria.
O juiz ouviu atentamente o pedido feito pelo advogado em nome do grupo de caçadores. Ele pediu alguns dias para considerar, já que era uma decisão que iria afetar muitas pessoas em todo o país. Depois de três semanas esperando a resposta, a sentença foi favorável. Contanto que fosse acompanhado por pessoas devidamente regulamentadas para evitar qualquer problema e as ações fossem filmadas. Isso alegrou muito o grupo de caçadores.
O grupo internacional dos caçadores foi acionado. Vários milhões foram destinados em busca dos melhores veterinário e pessoas da área de tecnologia. Câmeras de alta resolução foram projetadas. Vários tipos de soníferos foram produzidos. As mentes mais brilhantes foram contratadas para evitar qualquer mal aos elefantes. Durante três anos, vários estudos foram feitos, métodos foram aprimorados. Por fim, decidiram que a primeira experiência seria realizada.
Uma manada de elefantes estava passando. Uma das máquinas de alta precisão detectou os espécimes perfeitos. Rapidamente, foi lançado um tranquilizante através de um drone. As pessoas assistiam admiradas. A elefanta estava lá deitada no chão. De repente, um dos caçadores veio com uma TV de alta resolução e colocou ao lado da elefanta. Em uma pequena mala havia vários robôs minúsculos controlados por controles remotos. Eles tinham uma capacidade incrível de agregarem-se uns aos outros. Um dos caçadores sentou-se diante da tela que mostrava com uma resolução magnífica aquilo que os pequenos robôs filmavam. O caçador direcionou-os para a elefanta. Eles foram filmando tudo até chegarem ao feto que a elefanta carregava. Com grande maestria, o caçador começou a despedaçar o pequeno feto. Tudo passando em alta definição. Os caçadores lá presentes aplaudiam.
Algumas pessoas que estavam lá e faziam parte dos ficaram transtornadas. Elas queriam que aquilo parasse, mas o caçador continuava. Com grande habilidade, ele retirou todo o feto sem causar qualquer dano à elefante. Depois de alguns minutos, a elefante acorda e sai tranquilamente e junta-se à manada.
― Você será condenado à morte!
O caçador não escondia sua alegria. Estava muito satisfeito com o que tinha realidade. Não demorou muito para que a polícia chegasse ao local. O caçador foi detido. Os defensores dos elefantes levantaram um processo e pediam a execução do caçador. A associação dos caçadores providenciou a defesa. O dia do julgamento foi marcado. Todos acreditavam que já estava resolvido, ele seria condenado à injeção letal. Depois do advogado de acusação falar sobre o ato tão terrível que havia acontecido, um assassinato tão brutal e sem defesa que não poderia passar impune, a defesa teve a sua fala.
― Até agora não sabemos por que estamos neste júri nem do que meu cliente está sendo acusado.
― Seu cliente está sendo acusado de matar um elefante.
― Meu cliente não matou nada. Nesta mesma corte foi dada a permissão de colocar os elefantes para dormir. Foi somente isso que meu cliente fez.
― Ele matou o filhote da elefanta.
― Não se pode matar aquilo que não tem vida. Esse mesmo júri atestou essa realidade. Não houve qualquer dano à elefanta, ela saiu como se nada tivesse acontecido. Nós temos um precedente... os humanos.
― Caso encerrado!
            ― O acusado é inocente.   

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Contos & Crônicas - A casa mal-assombrada


A casa da esquina era muito conhecida por causa das histórias contadas a seu respeito. Já fazia muitos anos que o dono tentava alugá-la, mas nunca conseguia, pois todos os possíveis inquilinos, ao ouvirem sobre o que havia acontecido lá, desistiam. As histórias corriam a cidade. Ninguém tinha coragem nem de passar na calçada da casa. Há muitos anos, aquela casa pertencia a uma família muito pobre que devia uma alta quantia a um agiota. Não podendo pagar a dívida, a família foi expulsa da casa e o cobrador ficou com o imóvel. Eles, não tendo para onde ir, ficaram na calçada. Todos os dias, o agiota ia ameaçá-los e chegou até a atirar na direção deles.
― Se vocês gostam tanto da casa, vou fazer com que vocês fiquem nela de uma vez por todas.
Certo dia, eles sumiram. Ninguém sabia para onde aquela família havia ido. Pouco tempo depois, começaram os rumores de que eles haviam sido mortos e enterrados no quintal da casa. Algumas pessoas começaram a dizer que ouviam vozes vindo da casa, outros afirmavam que avistaram uma família dentro dela. Dessa forma, os anos foram se passando e ninguém tinha coragem de alugar a casa.
O dono, cansado de não conseguir ninguém que se interessasse em alugá-la e de gastar dinheiro para fazer os reparos, decide vendê-la. Ele pensava que encontraria alguém que quisesse, pelo menos, o terreno. Era um local bem centralizado, com amplo espaço. Uma boa residência para se morar, mas que ninguém se interessava. A cada mês que passava, ele diminuía o valor, até ficar praticamente de graça, mas, mesmo assim, não apareciam compradores.
Um dia, um jovem, passando pela rua, viu a placa de vende-se. Ele perguntou aos vizinhos com quem poderia falar para saber mais informações sobre o imóvel.
 ― Você tem certeza de que irá querer saber informações sobre essa casa?
― Sim, por que não? O preço está muito bom.
― Ela é assombrada. Conta-se que o homem que hoje é dono matou toda uma família que aí morava e os enterrou no quintal.
― Como você sabe disso? A polícia o prendeu?
― Não, até hoje não foi comprovado. Mas eu tenho certeza que sim.
― Como?
― Muita gente já disse que ouviu gritos e viram o casal com seu filho caminhando à noite dentro da casa.
― Eu não acredito muito nessas coisas.
― Está bem, você quem sabe. Aqui está o número do proprietário.
O jovem ligou e marcou um encontro com o homem. Ele veio rapidamente, pois estava ansioso para vender aquele lugar.
― Posso dar uma olhada na casa?
― Sim, claro.
― Ela está muito deteriorada. A princípio, achei que estava barata, mas gastaria muito para reformá-la. Além disso, estão contando-me umas histórias sobre o passado da casa que não me agradam muito.
― Não ligue para o que diz esse povo. São apenas histórias.
― Se são apenas histórias, como você não conseguiu vender ainda essa propriedade tão boa?
O homem ficou calado, pois não tinha como rebater esse argumento. O jovem fez menção de não querer mais fazer negócio. Mas sugeriu ainda uma possibilidade:
― Caso você me venda pela metade do preço do que está pedindo, eu vou querê-la, mesmo com todas as histórias que são contadas.
― Mas ela vai ficar quase de graça!
― Bem, é pegar ou largar.
Depois de pensar um pouco, ele aceitou a oferta. Ele não queria mais ver aquela casa. Mesmo tendo perdido muito dinheiro, era um alívio não ter que ficar mais com ela. Uma semana depois do negócio fechado, o jovem estava fazendo os reparos necessário para que pudesse morar. O mesmo vizinho, ao vê-lo consertando-a, diz:
― Vejo que você é muito corajoso. Mas, mesmo que não tenha dado muito trabalho comprar essa casa já que não havia outros compradores e nem tenha sido muito caro, acredito que você não permanecerá nela por muito tempo. Quando os fantasmas começarem a aparecer, você irá arrepender-se de tê-la comprado.
― Não, você está engando. Deu muito trabalho e levou vários anos para que minhas histórias sobre essa casa se tornassem famosas. Agora, posso trazer meus pais para o seu lugar.

Contos & Crônicas - Uma viagem de volta ao sentido

Não podemos dizer que Damasceno era alguém que passasse despercebido. Um intelectual bem-sucedido, possuía aceitação em todos os campos ...